As mães de Portinari e de Cecília

Cândido Portinari (1903-1962) e Cecília Meireles (1901-1964) foram impressionantemente contemporâneos. Pintor e poeta atravessaram os mesmos tempos, respiraram o mesmo ar da pintura e literatura modernistas, sofreram as mesmas dores no parto de suas obras. Em algumas delas, a personagem “mãe” se fez representar.

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“Mãe Preta”, de Cândido Portinari – 1940

“Vigília das Mães”, de Cecília Meireles

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“Mulher e criança”, de Cândido Portinari – 1936

Nossos filhos viajam pelos caminhos da vida,
pelas águas salgadas de muito longe,
pelas florestas que escondem os dias,
pelo céu, pelas cidades, por dentro do mundo escuro
de seus próprios silêncios.

Nossos filhos não mandam mensagens de onde se encontram.
Este vento que passa pode dar-lhes a morte.
A vaga pode levá-los para o reino do oceano.
Podem estar caindo em pedaços, como estrelas.
Podem estar sendo despedaçados em amor e lágrima.

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“Mulher e criança”, de Cândido Portinari – 1938

Nossos filhos têm outro idioma, outros olhos, outra alma.
Não sabem ainda os caminhos de voltar, somente os de ir.
Eles vão para seus horizontes, sem memória ou saudade,
não querem prisão, atraso, adeuses:
deixam-se apenas gostar, apressados e inquietos.

Nossos filhos passaram por nós, mas não são nossos,
querem ir sozinhos, e não sabemos por onde andam.
Não sabemos quando morrem, quando riem,
são pássaros sem residência nem família
à superfície da vida.

Nós estamos aqui, nesta vigília inexplicável,
esperando o que não vem, o rosto que já não conhecemos.
Nossos filhos estão onde não vemos nem sabemos.
Nós somos as doloridas do mal que talvez não sofram,
mas suas alegrias não chegam nunca à solidão de que vivemos,
seu único presente, abundante e sem fim.

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“Criança morta”, de Cândido Portinari – 1944

“Lamento da mãe órfã”, de Cecília Meireles

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“Mãe chorando”, de Cândido Portinari – 1944

Foge por dentro da noite
reaprende a ter pés e a caminhar,
descruza os dedos, dilata a narina à brisa dos ciprestes,
corre entre a luz e os mármores,
vem ver-me,
entra invisível nesta casa, e a tua boca
de novo à arquitetura das palavras
habitua,
e teus olhos à dimensão e aos costumes dos vivos!

Vem para perto, nem que já estejas desmanchando
em fermentos do chão, desfigurado e decomposto!
Não te envergonhes do teu cheiro subterrâneo,
dos vermes que não podes sacudir de tuas pálpebras,
da umidade que penteia teus finos, frios cabelos
cariciosos.

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“Mulher e crianças”, de Cândido Portinari – déc. 40

Vem como estás, metade gente, metade universo,
com dedos e raízes, ossos e vento, e as tuas veias
a caminho do oceano, inchadas, sentindo a inquietação das marés.

Não venhas para ficar, mas para levar-me, como outrora também te trouxe,
porque hoje és dono do caminho,
és meu guia, meu guarda, meu pai, meu filho, meu amor!

Conduze-me aonde quiseres, ao que conheces, – em teu braço
recebe-me, e caminhemos, forasteiros de mãos dadas,
arrastando pedaços de nossa vida em nossa morte,
aprendendo a linguagem desses lugares, procurando os senhores
e as suas leis,
mirando a paisagem que começa do outro lado de nossos cadáveres,
estudando outra vez nosso princípio, em nosso fim.

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“Sofrimento de mãe”, de Cândido Portinari – 1955

Cada mãe ficou mais rica depois de Portinari e de Cecília. Inclusive eu.

Variações sobre um mesmo tema: “As mães de Mary Cassatt descansando nos versos de Drummond, Vinicius e Quintana” e “As mães de Picasso”.

Autor: Catherine Beltrão

Comment(1)

  1. Responder
    MIGUEL PENNA SATTAMINI DE ARRUDA says:

    Maravilha. As pinturas de Portinari são de uma força insuperável e emocionante. Sua representação do sofrimento, da pobreza e da dor possuem um magnetismo que nos traga para dentro dos sentimentos. É maravilhoso.
    Cecília Meireles para mim traz uma história interessante. Mesmo possuindo alguns de seus livros, por um motivo desconhecido, que, agora lembrando, pode ter sido por achar que sua aparência denotava uma escritora mais para crianças, nunca peguei um para ler. Qual não foi minha surpresa quando a Rádio Ministério da Educação, que escuto todo tempo, começou um programa pequeno chamado “Falando converso”, onde Paulo Autran lia poemas de Cecília Meireles e outros liam poemas de outros autores. Fiquei impressionado com surpresa pela beleza, pela força e pelos temas tão incríveis que seus poemas apresentavam. Passei a admira-la e vou ler os livros que tenho. Agora, esses dois poemas que você postou, são impressionantes. O primeiro é como qualquer mãe ou pai sente profundamente com a ida dos filhos embora de nossa proteção. Muito profundo, triste, dolorido e maravilhoso. O segundo é estarrecedor, é de uma beleza sofrida até o fundo da alma. Ela nos leva às entranhas da morte e da terra dos mortos, com todos os detalhes e sofrimentos. Um primor, uma obra-prima. Mais uma vez parabéns por essa incrível colaboração com a cultura, onde sempre bebo na fonte dos novos conhecimentos.

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